segunda-feira, 9 de setembro de 2013

EMOÇÕES MINHAS...



Foto de Francisco Guerrero



Há coisa de ano meio fiquei a conhecer um excerto do livro «O Tecido do Outono» do escritor António Alçada Baptista. Este recorte emocionou-me e deixou-me com vontade de ler todo o livro, o que ainda tenciono vir a fazer.
Voltei a encontrar este texto hoje e, por ainda o achar tão belo, decidi partilhar convosco este bocadinho:


«Encontrar as palavras que dizem ao outro como é a medida do carinho que temos por ele  e que a presença do corpo ali exposto ao nosso lado melhor nos recorda esse nosso destino amoroso de que andamos desviados porque nos enganaram nos caminhos da vida e fizeram de nós umas peças de um jogo falso que nada tem que ver com aquilo para que fomos feitos.

Uma vez, estávamos um com o outro e, a certa altura, ela resolveu puxar-me pelo corpo e fazer de mim um amante como os de antigamente. Estávamos deitados na cama e começou a afagar-me  com uma magia nas mãos que me fez reviver um fogo de que eu só tinha já uma recordação, uma saudade aveludada, que às vezes me visitava em certas insónias que revivia amores de que tinha uma grata recordação. Senti a boca dela na minha como se fosse um bocadinho de fogo que me pegava e que era um convite àquela linda aventura que ia começar. A sua boca desceu depois pelo meu peito e eu sentia que muita coisa despertava em mim, tal como antigamente, que o sexo, crescia à maneira que ela o afagava e beijava, o acalentava com a boca, e eu a sentir a humidade do cuspo, como se fizesse parte da expressão do amor que via sair-lhe por todos os poros. Depois, veio mesmo para cima de mim. Com as mãos, abriu a porta do seu corpo e fez-me entrar.

(…) O nosso prazer saiu acertado um com o outro como se o tivéssemos treinado a vida inteira e, depois, ela caiu sobre mim e ficou prostrada com a boca húmida e a língua a sair  como quem procura um lugar para depor um beijo que era de comunhão, de gratidão, de tudo o que as nossas emoções juntas podem exprimir de melhor. Ficámos assim algum tempo até que levei as minhas mãos ao seu cabelo e puxei a sua cabeça para a minha e demorámos nisto, eu a passar-lhe  a mão pelos cabelos, ela a deixar ficar a boca meio aberta na minha face  e a deixar a língua molhada a marcar a presença do amor quando se exprime pelo corpo. E eu pude sentir que não era um corpo qualquer. Que era o corpo dela, com tudo o que tinha de bom e afectuoso, com toda a sua pequena história pessoal, com todas as intimidades e afectos, os que eu tinha visto e os que ela me tinha contado. Ela mesma, só ela: peça única, a mulher que me amava e a quem eu dava todo o amor de que ainda dispunha num corpo que a pouco  e pouco se despedia do desejo que sentia, ao entregar-me àquela mulher, que se abria outro mundo possível para começar outra forma de amar.

Da outra vez não foi muito diferente. A Eugénia veio a Portugal(…) Dois dias depois disse-lhe pelo telefone:
-Vou ter contigo a Coimbra.
(…)encantava-me a sua presença, o seu sorriso bom, o seu olhar doce, o seu corpo tal como deve ser um corpo: já com algumas marcas da sua história, naquele lindo pedaço de tempo que está entre a virgindade e a decadência, que é o estado em que a gente devia estar sempre.
Quando ela ficou nua ao meu lado tudo isto estava no meu pensamento mas depressa os seus beijos me levaram de asas para aquele céu onde a gente se encontra com aquilo para que nascemos: para amar alguém em  que o entendimento dos corpos seja tal qual o entendimento das palavras que dizemos  quando nos vimos. Ela tinha-me dito: «Sinto tanto a tua falta…»

Era isso que fazia o meu encantamento: o saber que aquele corpo era o corpo dela, que não se sabia onde acabava o corpo e começava a alma, que tudo era um todo de amor que me emocionava, que me acordava e me fazia viver coisas que já estavam fora dos meus projectos


"O Tecido do Outono" (pp 159-162)

António Alçada Baptista


15 comentários:

  1. Lindo demais!
    Entendo porque te emociona!
    :)







    Beijos minha deusa :***

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    1. Sil

      As emoções que sentimos, a forma como percepcionamos o mundo que nos rodeia, dependem muito do que já vivemos... dependem da nossa idade emocional.
      Fico feliz por entenderes...


      Beijinhos sem idade
      (^^)

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  2. Gostei muito.

    Vou seguir, segue de volta!

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  3. Desculpa vir meter a foice em seara alheia, Afrodite, mas na etiqueta deverias trocar a palavra 'sexo' por 'amor'!
    É desse amor intenso que Alçada Baptista nos fala e transmite a sensação e o sentimento:

    "Era isso que fazia o meu encantamento: o saber que aquele corpo era o corpo dela, que não se sabia onde acabava o corpo e começava a alma, que tudo era um todo de amor que me emocionava, que me acordava e me fazia viver coisas que já estavam fora dos meus projectos..."

    Claro que a paixão e o encantamento só podem terminar na consumação do amor físico. Nada mais natural, humano e saudável.:)

    Pode praticar-se sexo sem amor...apenas com desejo e atracção física, mas fazer Amor, com Amor, é outra coisa! É a suprema sublimação da prática amorosa. Foi isso que o autor escreveu, em meu entender!

    Beijinhos!:)

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  4. Olá,
    Nós não nascemos para amar, nascemos para construir e para procria, é o instinto de qualquer animal.
    O amar é um sentimento que nasce em nós porque somos racionais, estarmos num estado vazio de sentimentos não é impeditivo de ter sexo e procriar.
    Escrever sobre o amor é fácil, escrever sobre a realidade humana capaz de tudo para ter sexo é mais difícil porque estamos a autorretratarmos, o momento dita o que somos capazes de fazer.

    O mundo precisa de loucos,
    loucos uns pelos outros.

    Abraço

    Obrigado pelo John Lennon - Imagine, fiquei encantado.

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  5. Desafio do Melhor Piropo: mande-me o piropo mais giro que ouviu ou disse e vamos eleger o melhor piropo! Lá no http://www.picosderoseirabrava.blogspot.pt/2013/09/ai-os-piropos.html
    Vá lá concorra!
    Graça

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  6. Onde os lados A e B se tocam e se confundem. Nem mesmo sei se quem vive momentos destes está interessado em destrinçar onde começa o amor e acaba o sexo, ou vice-versa.
    Excelente excerto do António Alçada Baptista, e de certeza um excelente livro.

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  7. E a música é ...
    http://www.youtube.com/watch?v=raB8z_tXq7A

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  8. Não tenho palavras para adjetivar este texto, apenas me ocorre uma enorme sensação de ter vivido algo igual.
    Como lemos nos espaços comerciais, "Escolha Acertada" é o que me apraz dizer sobre este texto.
    Beijinho emocionado

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  9. Belo texto do António Alçada Baptista, que não surpreende. Lembro-me bem de ouvir as suas curtas crónicas, na RTP, no "tempo da outra senhora". Não perdia uma, encantado com a inteligência e beleza do discurso.Sussurava-se na altura que era um dos principais conselheiros de Marcelo Caetano.

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  10. Cara confrade Afrodite!
    Que deleite inefável iniciar a semana e se deparar no seu encantador Jardim com esta belíssima fotografia e texto que me fizeram divagar sobremaneira!
    Caloroso abraço! Saudações divagadoras!
    Até breve...
    João Paulo de Oliveira
    Diadema-SP

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  11. Em relação à escrita de cenas sexuais, há quem o saiba fazer e quem não consiga. É precisa uma certa dose de equilíbrio, que falta a alguns, que parecem relatar uma ejaculação precoce ou uma queca à papo-seco ou uma ninfomaníaca doida, entre tantos outros resvalos possíveis. Alçada Baptista está definitivamente no primeiro caso! :)

    Beijocas

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  12. Não sou grande fã de Alçada baptista.
    Mas este texto, confesso, é muito bonito.
    Beijinhos!

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  13. Pedimos desculpa mas é apenas para divulgar. Um casal, a crise, poupanças e histórias de quem vive a crise como muitos outros, mas onde a poupança é o melhor remédio. Pode passar a mensagem…? Obrigado!

    http://ocarteiravazia.blogspot.com/

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